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São Paulo pela gota d’água

Foto: Luis Moura / Agência O Globo / UOL
Interrompemos a programação para falar de coisa séria – de utilidade pública, ambiental, biológica – que concerne igualmente a mim e a você.

Caro conterrâneo,

Mesmo que você ainda tenha o privilégio, o doce privilégio, de abrir a torneira e ser presenteado com – como chama mesmo aquele incolor, inodoro e insípido líquido raro? Ah é, água! – a qualquer hora do dia, ou na maior parte dele, isso não significa que você possa continuar seguindo seus hábitos hídricos de sempre.

Se atualmente você, por exemplo, toma dois banhos por dia ou lava o seu belo possante toda semana, você não vive no mundo real. Alô! Planeta Terra-sem-água-doce-limpa chamando! Você não concebe a gravidade da nossa atual situação – ou está se fingindo de sonso. Mas mesmo que você não tenha atitudes sem noção em relação à água, é possível que você tampouco tenha se dado conta do quão lascados nós estamos.

Foto: SXC - Renato Cardoso (renato2004's)

Foto: SXC – Renato Cardoso (renato2004’s)

Que não se pode gastar água, isso todo mundo, em teoria, sempre soube. Que temos que fazer “uso consciente” dela tem sido reforçado nas últimas décadas. Porém, o que venho mostrar aqui é algo além. Não estou falando de escovar os dentes com a torneira fechada, de não lavar a calçada, e outras coisas ridiculamente absurdas em qualquer situação hídrica. Estou falando de realmente economizar, como se não houvesse amanhã – e uso esta expressão com total intencionalidade; do jeito que a coisa vai, fica difícil dizer até quando o “amanhã” é certo por aqui.

Já vivemos dias melhores – os peles-vermelha que o digam – e o buraco da nossa situação é tão infinitamente mais embaixo que não vem ao caso discuti-lo neste momento. Individualmente, não vamos reduzir o brutal desmatamento da Amazônia ou replantar as matas ciliares dos mananciais, tampouco combater este ou aquele partido político, mas cada um de nós pode, talvez, ajudar a evitar – ou tardar – o colapso total da nossa região.

Foto: SXC – Local Guy (data9090’s)

Situações extremas requerem medidas extremas. E isso significa uma completa mudança de hábitos. Se não tem um racionamento oficial, façamos um auto-racionamento. Quer ver como é simples?

Você prefere ter água para beber ou…

Lavar a calçada?

Sem comentários, né? Acho que ninguém aqui lambe a calçada para precisar que ela seja lavada. Varrê-la já está de bom tamanho. Uma dica: de vez em quando ainda chove, e a chuva se encarrega de lavar o chão para você.

Lavar o carro?

Sem comentários, né? [2] Quantas doenças a sua charanga vai ter se você não a lavar? Quantos dias sem água ela resiste até padecer? “Ah, mas o lava-rápido não usa água da SABESP!” Na hora que o caos for instaurado isso vai fazer uma p*** diferença mesmo! Não tem essa, água é água. Amigão, você não precisa lavar o carro. Ponto. Supera.

Molhar as plantas em área externa?

Sem comentários, né? [3] Tem gente que molha as plantas do jardim com uma frequência desnecessária. Óbvio que as plantinhas precisam de água. Tadinhas, longe de mim falar para não dar água a elas. Mas sejamos racionais. A mesma chuva que lava a sua calçada também molha as plantas em áreas externas, ok?

Lavar a roupa?

OK, precisamos de roupas limpas. Mas elas não são absolutamente imprescindíveis para nossa existência; dá para dar uma boa adaptada nos hábitos.

Na prática:

  • Lave as roupas apenas quando for realmente necessário. Sabe aquela camiseta que você vestiu para ir comprar pão na esquina e aquela calça que usou no cinema? Não precisam ser imediatamente postas para lavar
  • Evite usar a máquina. Sabe aquela roupa que você usou na academia e está apenas suada, e que depois você vai usar para suar de novo? Não há necessidade de usar um ciclo inteiro da máquina para elas. Coloque-as em um balde com sabão e já era
  • Quando precisar da máquina, acumule o máximo de roupa possível para lavar em uma única vez
  • Com exceção das roupas brancas, que obviamente mancham com as coloridas, supere a questão de cores e tipos de tecidos, lave tudo junto
  • Troque toalhas e lençois com menos frequência e, novamente, lave tudo junto
  • Sempre ajuste o nível da água da máquina para a quantidade de roupa; não use o nível alto se você não encheu a máquina até em cima

Importante! Você já viu a quantidade de água que é jogada fora a cada ciclo de lavagem da máquina? É coisa pra caramba! Para se ter uma ideia, uma máquina com capacidade de 5 kg (pequena) gasta cerca de 135 litros (!!!). Colete esta água em baldes e use-a para dar a descarga no seu xixizinho, lavar o banheiro, o quintal, enfim, onde não precisa de uma água incrivelmente limpa.

Lavar a louça?

OK, também precisamos lavar a louça. Mas há maneiras e maneiras de fazer isso. E a mais importante aqui é:

  • Ligue a torneira pelo menor tempo necessário e com a menor vazão de água possível. Vejo no meu dia a dia muita gente abrindo a torneira para lavar uma colherinha de café com uma abundância “cachoeirística” de água. Não!
  • Use a própria água acumulada na limpeza de recipientes (quando já está limpo e você está só tirando o sabão, sabe?) para lavar outros itens
  • Utensílios (panelas, potes, pratos, etc) podem ser reutilizados sem lavar quando não muito sujos (sem gordura, por exemplo)

Tomar banho?

Tá, banho também não dá para deixar de tomar. Será mesmo? Pergunte aos europeus, que não só não foram extintos por não tomarem muitos banhos na História, como colonizaram praticamente o mundo todo. Enfim.

Lembre daquele dia em que você não fez exercícios, apenas ficou sentado horas a fio no escritório. Quão realmente imprescindível seria um banho neste dia? Pense nisso. Para nós brasileiros, morando num país tropical, com costumes herdados dos indígenas, parece horrível pensar em não tomar banho todos os dias. Mas, meu amigo, do jeito que a coisa vai, é bastante possível que tenhamos que começar a desapegar deste hábito também.

Bom, enquanto podemos, façamos com muita responsabilidade:

  • Banho vapt-vupt: entrou, lavou, enxaguou, saiu – chuveiro não é lugar para pensar na morte da bezerra
  • Desligue o chuveiro todo o tempo que não precisar dele; ligue apenas para se enxaguar
  • Quaisquer outras atividades de lazer comumente concomitantes ao banho, favor realizar a seco
  • Coloque um balde dentro do box para coletar o excesso de água que cai do chuveiro; essa água é limpa, e pode ter usos diversos na sua casa

Dar a descarga?

Ninguém quer deixar a própria caca ali de presente, óbvio. Nem deve! Por favor, elimine-a. Mas você já parou para pensar em quantos xixis nós fazemos por dia? Agora multiplica pelos em média 10 litros que se gastam em cada descarga. Acredite, seu xixi não é assim tão poderoso que precise ser eliminado imediatamente (e com tanta água) antes da próxima pessoa usar o banheiro.

Em ambientes públicos/compartilhados – no trabalho, no shopping, no restaurante etc – não hesite em dar um migué e pular a hora da descarga. Isso não é falta de higiene nem motivo para embaraço. Deixe de dar a descarga com atitude! Até porque o próximo usuário, em breve, provavelmente vai acabar dando por vocês dois.

Em casa – das duas, uma:

  • Dê descarga apenas após vários xixis – e neste caso vale usar um desinfetante líquido para amenizar o odor desagradável; ou então você muito provavelmente prefira (e deva) seguir a próxima dica
  • Reuse água de outras fontes para eliminar aquele xixzinho: seja da máquina de lavar, seja do balde do chuveiro

Cuidar da água não é algo passivo, não é apenas não fazer várias coisas. Requer muita atitude e boa vontade. E é, mais do que nunca, necessário. É isso ou… tenho até medo de pensar na alternativa. Este problema não é dos outros, não é futuro. É seu, é meu, e é agora. Você prefere continuar vivendo na sua bolha ou ter água para viver?

Sem mais, obrigada por adotar estas medidas.

Laura Sette

Laura Sette

Colaboradora em ExploraSampa
Bióloga paulistana que não vai sossegar enquanto não conhecer os 7 Cantos do Mundo. Apaixonada por natureza e culturas, é perdendo-se por aí que ela se encontra. É viciada em forró e café, positividade é sua filosofia de vida e não perde uma oportunidade de rir e fazer rir com uma (nem tão) boa piada.
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