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Solar da Marquesa, um pedacinho do Período Imperial no coração de São Paulo

Fachada do Solar da Marquesa de Santos - Foto: Rafael Leick / ExploraSampa

Se há uma característica típica do Brasil com a sua história, é a má preservação da sua memória. Com São Paulo não poderia ser diferente, pois é uma cidade que se reconstrói constantemente em cima de si mesma. Sim, há esforços dos órgãos responsáveis, mas não é difícil achar que a Roma dos imperadores é mais preservada que muito lugares importantes da história recente do Brasil.

Portanto, é incrível chegar nos dias de hoje e ter algo preservado da antiga Vila de São Paulo de Piratininga. O Solar da Marquesa, casa que pertenceu a Domitila de Castro Canto e Melo, mulher que foi amante de Dom Pedro I e uma das mais importante mulheres da cidade de São Paulo no século 19, ainda está em pé na grande metrópole.
Ok, a casa não é assim original que se possa dizer “nooooouuussa como está igualzinha”, mas fazendo uma visita e observando as informações altamente detalhadas pela equipe do Museu da Cidade – nome da mantenedora do local – dá para se ter uma ideia de como era a casa dessa personagem tão inusitada da história do Brasil.

Portas de entrada do Solar da Marquesa - Foto: Emerson Lisboa / ExploraSampa

Portas de entrada do Solar da Marquesa – Foto: Emerson Lisboa / ExploraSampa

 

Titília, A personagem

Domitila de Castro Canto e Melo, a Marquesa de Santos, ou Titília para o Demonão, no caso o Imperador, era uma moça de uma família tradicional de São Paulo que recebeu o título direto de Dom Pedro I. Ela nasceu na capital paulista no finalzinho do século 18. Em 1822, conheceu o nosso “príncipe afogueado”, e se mudou para a corte, no Rio de Janeiro. Detalhe, a casa dela na corte, hoje, também é preservada como Museu do Primeiro Reinado. Como sabem, Pedrito era casado com a Imperatriz Leopoldina, mas mesmo assim, Domitila fez sucesso, realizou festas, adquiriu títulos de nobreza e influenciou as decisões na corte. Se hoje nós temos a Valesca Popuzuda, na época nós já tínhamos a nossa primeira Poderosa da história. Lógico, acumulou inimigos e foi mal vista por alguns, sendo tratada como “alpinista social” .
Se você não tiver muito tempo para pesquisar sobre isso, pode ver um trechinho da Minissérie O Quinto dos Infernos, produzido pela Globo que mostra a relação entre Demonão e Titília, hilariantemente interpretados por Marcos Pasquim e Luana Piovani .

Bem, vou deixar para vocês pesquisarem essa relação dela com Dom Pedro na própria casa dela, pois o Solar da Marquesa tem uma parte dedicada a essa história. Você perceberá que Domitila foi uma mulher à frente do seu tempo que não deixou a cultura patriarcal dominá-la, apesar da pouca formação educacional.
Voltando e resumindo, em 1829, Domitila foi mandada embora da corte quando Dom Pedro estava prestes a se casar com Dona Amélia, na qual o contrato nupcial previa o afastamento de Titília. Com 300 contos de reis, a Marquesa comprou a casa em 1834 e promoveu uma reforma.

Parte da exposição é dedicada às cartas de amor do Imperador à Marquesa - Foto: Emerson Lisboa / ExploraSampa

Parte da exposição é dedicada às cartas de amor do Imperador à Marquesa – Foto: Emerson Lisboa / ExploraSampa

 

O Solar da Marquesa

A partir desse momento, a casa passou a ser conhecida como Palacete do Carmo, pois o nome da rua antigamente era Rua do Carmo. Antes, não há registros precisos sobre a construção do imóvel. A primeira informação data de 1802, quando o casarão foi dado como pagamento de uma dívida. Porém, há registros de quatro casas na rua do Carmo entre 1739 e 1754. Ao que parece, através de análises arquitetônicas e prospecções arqueológicas, duas dessas casas, que foram feitas de taipa e pilão, deram origem ao Solar.

Voltando para a Marquesa, linda e poderosa, instalada em sua nova casa, ela fazia amigos e influenciava pessoas. Ela se casou com Rafael Tobias de Aguiar, político e militar paulista. As festas eram constantes com bailes de máscaras, reuniões políticas e saraus literários, na época em que São Paulo iniciava o seu fervilhamento cultural mantido até hoje. O endereço se tornou reduto da classe política e intelectual da cidade. Na velhice, a Marquesa de Santos se tornou uma senhora devota e caridosa.

Faqueiro com as inscrições MS, em exposição no Solar - Foto: Emerson Lisboa / ExploraSampa

Faqueiro com as inscrições MS, em exposição no Solar – Foto: Emerson Lisboa / ExploraSampa

Em 1867, com o falecimento dela, o Solar passou para o seu filho. Que mais tarde foi vendido para a Mitra Diocesana, tornando-se um Palácio Episcopal. Segundo informações do Museu da Cidade, parte dos móveis foram preservados. E é aí que entra o trabalho primoroso da equipe de museologia. Eles identificaram os objetos e os colocaram em exposição com todos os detalhes possíveis.

Particularmente, o que mais me chama a atenção na casa, além dela própria, são os objetos. Há diversos utensílios utilizados ao longo dos séculos pelas famílias paulistas. Mas em especial, há pertences da própria Domitila. Destaco duas coisas. Uma é o aparelho de prata composto de faca, garfo e colher com as iniciais MS – Marquesa de Santos. Outra, é uma cama que foi feita para a realeza francesa, mas comprada pelo império brasileiro e dado à Marquesa. Também há cadeiras e bancos com encosto. É um primor olhar para móveis tão antigos e que foram utilizados pela Marquesa e, talvez, pelo próprio imperador – se é que você me entende quando eu falo da cama… cof, cof.

Cama da Marquesa de Santos - Foto: Emerson Lisboa / ExploraSampa

Cama da Marquesa de Santos – Foto: Emerson Lisboa / ExploraSampa

 

Por que é um achado encontrar essa casa restaurada e com o móveis da Marquesa?

Após um século e meio, a casa foi se deteriorando. Passou por uma companhia de Gás que fez dela um escritório e pela Prefeitura que a transformou em Secretaria de Cultura. Por último, ficou desde 1991 fechada por não oferecer mais condições seguras. Não era possível restaurá-la conforme era na época da Marquesa, mas após o restauro, hoje, é possível identificar inúmeras característica remanescentes daquela época. Algumas paredes estão sem o acabamento para que você possa identificar as técnicas de construção de taipe e pilão, pau-a-pique, taipa francesa e alvenaria de tijolos. Também irá encontrar forros apainelados, pinturas murais e artísticas.

A visita é gratuita, está próximo ao metrô Sé, que tem a Catedral da Sé, ao lado do Pátio do Colégio, do Museu da Imagem e do Som de São Paulo, pertinho do Centro Cultural Banco do Brasil e do Mosteiro de São Bento. Em um dia você consegue fazer um tour e rechear o Instagram e Facebook com fotos bacanas. Também pode fazer uma coleção no Pintrest. Não esqueça de dar check-in pelo Swarm e tuitar as suas impressões. Grave uns curtas no Vine, sem deixar de postar sua trilha sonora no SoundTracking (sim, sou o louco das redes sociais, rs).

Foto: Emerson Lisboa / ExploraSampa

Foto: Emerson Lisboa / ExploraSampa

Parte preservada da pintura original do Solar - Foto: Emerson Lisboa / ExploraSampa

Parte preservada da pintura original do Solar – Foto: Emerson Lisboa / ExploraSampa

Caso vossa senhoria queiras conhecer um pouco sobre a Marquesa de Santos, recomendo a ti:

– Titília e Demonão | Cartas Inéditas de Dom Pedro I à Marquesa de Santos – Paulo Rezzuti
– 1822 – Capítulo “A Marquesa” – Laurentino Gomes
– “O Quinto dos Infernos”, minissérie da TV Globo

 

Museu da Cidade de São Paulo (site)
Endereço: Rua Roberto Simonsen, 136, Sé
Horário de Funcionamento: 3ª a domingo, 9h às 17h (há serviço educativo no local)
Entrada franca
Telefone: 11 3241.1081
E-mail: museudacidade@prefeitura.sp.gov.br

Transporte
Metrô Estação Sé – linhas 1-Azul e 2-Vermelha
Ônibus consultar no site da SPTrans

Emerson Lisboa

Emerson Lisboa

Colaborador em ExploraSampa
Nascido no bairro da Lapa, é apaixonado por histórias de vidas e suas relações com a cidade. Libertário e com uma visão de mundo crítica, tem uma preocupação constante das relações do homem com a natureza.
Emerson Lisboa

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